Dado do Security Leaders mostra que ataques contra prefeituras quase dobraram em um ano, e o caso de São José do Rio Preto mostra o custo real de tratar cibersegurança em smart cities como item opcional.
Em 2025, uma prefeitura brasileira ficou seis dias operando no papel. SAMU, Guarda Civil, o 153 e as unidades de saúde continuaram funcionando, mas sem sistemas: cada atendimento anotado à mão, cada despacho feito por telefone, enquanto os operadores por trás do ataque pediam resgate em bitcoin. Não foi um incidente isolado nem um azar pontual. Foi a consequência visível de um padrão que hoje tem número: 26% dos incidentes cibernéticos registrados no Brasil em 2025 miraram administrações municipais, segundo o Painel de Incidentes do Security Leaders. Um ano antes, essa fatia era de 14%.
A pergunta que resta não é se outra prefeitura será atacada, é quando, e se ela vai estar pronta. E a resposta a essa pergunta não depende de sorte, depende de uma decisão de projeto tomada muito antes de qualquer ataque acontecer: como a rede da cidade foi desenhada, e o que ela permite ou impede quando um ponto qualquer é comprometido.
O salto que os números escondiam
O Painel de Incidentes do Security Leaders, publicado em 23 de janeiro de 2026, registrou 92 incidentes cibernéticos contra o poder público em 2025. Desses, 25 tiveram administrações municipais como alvo, o equivalente a 26% do total. Em 2024, o mesmo painel havia contabilizado 70 incidentes, dos quais apenas 10 miravam municípios, ou 14%.
O salto de 14% para 26% em doze meses não é ruído estatístico, é tendência. Prefeituras deixaram de ser alvo ocasional do crime cibernético e passaram a ser alvo estrutural: um em cada quatro ataques registrados no país hoje tem um município do outro lado. Vale notar que o mesmo painel também documentou, no período, ataques de DDoS contra órgãos federais como STJ, TRF-3, além de infraestrutura crítica como o Aeroporto de Guarulhos, atribuídos a um único ator identificado pela Polícia Federal, e uma tentativa de ataque contra a Prefeitura de Poços de Caldas (MG) já no início de 2026, sem vazamento confirmado até o momento. O padrão não está restrito a um caso: é uma onda que atinge diferentes camadas do poder público, com prefeituras concentrando a maior parte do crescimento recente.
O motivo do salto é simples de enunciar e difícil de resolver: cidades conectadas cresceram em sensores, câmeras e sistemas de automação muito mais rápido do que cresceram em defesa cibernética. Cada novo semáforo inteligente, cada câmera de monitoramento, cada sensor de tráfego é também um novo ponto de entrada em potencial. Quando a infraestrutura de rede não acompanha esse crescimento com segmentação e visibilidade, a superfície de ataque aumenta silenciosamente, incidente após incidente, sem que ninguém perceba até o dia em que o ataque acontece.
Esse crescimento de exposição não é exclusividade do setor público. Dados de mercado publicados em setembro de 2026 mostram que agosto daquele ano registrou 27 ataques de ransomware no Brasil, o maior número mensal do ano, colocando o país entre os mais afetados do mundo. Os setores com maior crescimento no período foram exatamente aqueles que combinam sistemas de tecnologia da informação com automação operacional: energia, com um salto expressivo no número de casos, manufatura e saúde. É a mesma lógica de exposição que atinge câmeras, sensores e semáforos em uma cidade conectada, replicada em usinas, fábricas e hospitais. O padrão de fundo é sempre o mesmo: convergência entre IT e OT sem barreira de segurança entre as duas camadas.
O que acontece quando o ataque chega: o caso de São José do Rio Preto (2025)
O painel Erione e Fortinet na Innovation Week 2026, intitulado “Sua cidade é inteligente o suficiente para não ser hackeada?”, usou o ataque à Prefeitura de São José do Rio Preto em 2025 como retrato concreto desse risco. O caso interessa não pelo volume de dados vazados ou pelo valor do resgate, mas pelo que revela sobre o que acontece quando uma cidade inteira depende de sistemas que param de funcionar ao mesmo tempo.
Seis dias de cidade no papel
Durante seis dias, serviços essenciais da cidade operaram sem os sistemas digitais que os sustentam. O SAMU, a Guarda Civil e o 153, além das UBS e UPA, continuaram atendendo a população, mas com registros manuais e comunicação improvisada. É o tipo de cenário em que a tecnologia que deveria agilizar o atendimento vira, de repente, o motivo pelo qual ele fica mais lento e mais vulnerável a erro.
Pense no que significa, na prática, um despacho de emergência sem sistema integrado: o operador do 153 recebe a ligação, mas não tem acesso ao histórico do endereço, à localização das viaturas disponíveis em tempo real, ao protocolo digital que normalmente orienta a triagem. Cada etapa que antes levava segundos passa a depender de alguém anotar, ligar, confirmar por telefone. Em serviços de saúde e segurança pública, esse tipo de atraso não é um inconveniente administrativo, é um risco direto à vida de quem depende do atendimento.
O pedido de resgate em bitcoin e o custo real de não ter contingência
O ataque incluiu pedido de resgate em bitcoin, prática típica de ransomware. Mais do que o valor exigido, o custo real esteve na paralisação: seis dias sem sistemas em serviços que não podem parar representam risco direto à continuidade do atendimento à população, não apenas prejuízo financeiro ou reputacional.
É esse o ponto que costuma escapar da conversa sobre segurança cibernética no setor público: o cálculo de risco não pode se limitar a “quanto custaria pagar o resgate” ou “quanto custaria recuperar os dados”. O cálculo correto é “quanto custa um serviço essencial ficar seis dias sem sistema, sem previsão de retorno, numa cidade que depende dele todos os dias”. Esse número raramente aparece em orçamento, mas é ele que deveria orientar a prioridade de investimento em segurança de rede.
Cibersegurança em smart cities: mais nervos, nenhum sistema imunológico
A metáfora usada no painel Erione e Fortinet resume bem o diagnóstico: cidades inteligentes ganharam “mais nervos”, ou seja, mais sensores, câmeras e pontos de automação conectados, sem desenvolver o equivalente em “sistema imunológico digital”, a capacidade de detectar, isolar e responder a uma ameaça antes que ela se espalhe.
A metáfora funciona porque descreve com precisão o que acontece num corpo biológico e, por analogia, numa rede urbana. Um organismo com mais terminações nervosas não fica automaticamente mais saudável, fica mais sensível a estímulos, inclusive aos nocivos. Sem um sistema de defesa proporcional, cada novo nervo é também um novo caminho pelo qual uma infecção pode se espalhar. Uma cidade que multiplica pontos conectados sem multiplicar defesa segue exatamente essa lógica: mais sensibilidade, mais exposição, nenhuma barreira adicional.
Dispositivos com senha de fábrica
Um dos pontos levantados na palestra é recorrente em projetos de infraestrutura urbana conectada: dispositivos IoT, como câmeras e sensores, instalados e operando ainda com a senha de fábrica. É a porta mais simples de todas, e continua sendo usada.
Esse tipo de falha não exige do invasor nenhuma sofisticação técnica. Não é preciso explorar uma vulnerabilidade de software complexa quando o fabricante já publica, em manual, a senha padrão de milhares de dispositivos idênticos instalados em cidades diferentes. Um levantamento recente também identificado no acompanhamento do setor mostrou como servidores públicos mal configurados, nesse caso ligados a mais de vinte portais de prefeituras e delegacias brasileiras, foram comprometidos por meio de módulos de servidor maliciosos que redirecionavam tráfego para páginas fraudulentas, sem que a intrusão fosse percebida por meses. O ataque não usou nenhuma técnica exótica: aproveitou configuração padrão e ausência de monitoramento contínuo, o mesmo tipo de falha básica que a senha de fábrica representa em dispositivos IoT. A lição comum aos dois casos é que boa parte do risco cibernético em infraestrutura pública não vem de ataques sofisticados, vem de configuração básica que ninguém revisou.
Câmeras e sistema financeiro na mesma rede: a ausência de segmentação IT/OT
O segundo ponto é estrutural. Em muitos projetos, a rede de câmeras de monitoramento, os sensores de tráfego e o sistema financeiro da prefeitura compartilham a mesma malha de rede, sem segmentação entre tecnologia da informação (IT) e tecnologia operacional (OT). Na prática, isso significa que um invasor que compromete uma câmera mal configurada pode, a partir dali, alcançar sistemas críticos que nada têm a ver com vigilância urbana. É essa ausência de barreira interna que transforma um ponto de falha pequeno em um incidente de cidade inteira.
Para entender por que isso acontece, ajuda separar os dois mundos que costumam ser tratados como um só. Tecnologia da informação, ou IT, é a camada de sistemas administrativos, financeiros, de dados e comunicação: folha de pagamento, sistemas de arrecadação, e-mail corporativo. Tecnologia operacional, ou OT, é a camada que controla equipamentos físicos: câmeras, semáforos, sensores de tráfego, sistemas de iluminação pública, controladores industriais. Historicamente, esses dois mundos eram fisicamente separados, redes diferentes, equipamentos diferentes, equipes diferentes. A cidade conectada uniu tudo numa mesma infraestrutura de rede para reduzir custo e simplificar operação, mas raramente reproduziu, dentro dessa rede unificada, a separação de segurança que existia antes.
O resultado é uma rede plana, onde qualquer dispositivo pode, em princípio, se comunicar com qualquer outro. Uma câmera de monitoramento de trânsito, tecnicamente um dispositivo OT de baixa criticidade, fica no mesmo segmento lógico do servidor que processa pagamentos e dados de contribuintes, um ativo IT de alta criticidade. Comprometer a câmera, hoje, é tecnicamente simples: firmware desatualizado, senha padrão, protocolo de comunicação sem criptografia. A partir daí, sem segmentação, o caminho até o sistema financeiro está aberto. É esse desenho, mais do que qualquer vulnerabilidade específica de software, que faz de uma falha pequena um incidente que paralisa a cidade inteira.
O caminho: segurança desenhada desde o projeto, não remendada depois
Segmentação de rede e visibilidade por dispositivo deixaram de ser diferencial técnico e viraram pré-requisito para manter serviço público funcionando. Segmentar significa isolar redes por função e criticidade, de modo que o comprometimento de uma câmera não abra caminho até o sistema financeiro ou o sistema de saúde. Visibilidade por dispositivo significa saber, em tempo real, o que cada equipamento conectado está fazendo na rede, e não descobrir isso só depois do ataque.
Na prática, para um gestor público que está avaliando um projeto de cidade conectada, novo ou já em operação, esse caminho passa por algumas etapas concretas.
Primeiro, mapear o que já está conectado. Antes de qualquer decisão de segurança, é preciso um inventário real de todos os dispositivos na rede municipal: câmeras, sensores, controladores de semáforo, sistemas de iluminação, servidores administrativos. Boa parte dos incidentes em infraestrutura urbana acontece justamente porque ninguém tem esse mapa completo, e um dispositivo instalado há anos, esquecido, com firmware desatualizado, segue conectado e vulnerável sem que a equipe de TI saiba que ele existe.
Segundo, separar redes por criticidade, não por conveniência. A rede de câmeras não precisa, e não deveria, estar no mesmo segmento lógico do sistema financeiro. A rede de semáforos não precisa estar no mesmo segmento da rede administrativa. Segmentar significa desenhar a arquitetura de forma que cada camada de criticidade tenha sua própria malha, com regras claras sobre o que pode ou não se comunicar entre elas.
Terceiro, eliminar configurações padrão antes de colocar qualquer dispositivo em produção. Toda câmera, todo sensor, todo controlador que entra numa rede municipal deveria passar por um processo obrigatório de troca de credenciais e atualização de firmware antes da ativação. É um passo simples, de baixo custo, que elimina a porta de entrada mais usada em ataques a infraestrutura urbana.
Quarto, implementar monitoramento contínuo, não pontual. Visibilidade por dispositivo não é um relatório mensal, é um sistema que observa o comportamento da rede em tempo real e sinaliza qualquer anomalia, como um dispositivo que passa a se comunicar com um sistema fora do seu escopo normal.
Há ainda uma quinta peça, menos falada, mas igualmente decisiva: o tempo de detecção. Quanto mais rápido uma anomalia é identificada, menor o espaço para que um incidente pontual vire uma paralisação de dias. Tratar esse tempo como métrica de gestão, e não como detalhe técnico, é o que separa uma cidade preparada de uma cidade que só descobre sua vulnerabilidade quando já é tarde. Um gestor público que acompanha indicadores de operação deveria acompanhar também, com a mesma regularidade, o tempo médio que sua rede leva para identificar uma atividade fora do padrão.
Nenhuma dessas frentes funciona bem quando é adicionada depois que o projeto já está no ar. Segurança que entra como remendo custa mais caro e cobre menos do que segurança pensada desde a concepção da rede. Redesenhar segmentação numa rede já em operação, com centenas de dispositivos ativos e serviços que não podem parar, é uma obra de complexidade muito maior do que desenhar essa mesma segmentação antes da primeira câmera ser instalada.
Erione: infraestrutura de cidade conectada com defesa nativa
Foi justamente esse diagnóstico que a Erione levou ao palco da Innovation Week 2026, ao lado da Fortinet, para discutir publicamente os riscos e os caminhos de defesa de cidades conectadas. Como integradora de projetos de smart cities, a Erione aplica segmentação de rede e visibilidade por dispositivo desde a etapa de arquitetura, não como camada adicional depois que câmeras, sensores e sistemas já estão instalados e operando.
Isso significa que, num projeto novo, a separação entre redes IT e OT é parte do desenho inicial, não uma revisão posterior. Significa também que cada dispositivo, da câmera ao sensor de tráfego, entra em produção já com credenciais próprias e monitoramento ativo, não com configuração padrão de fábrica. A lógica é simples: cidade inteligente sem cibersegurança em smart cities desenhada desde a concepção não é smart city, é superfície de ataque com boa intenção.
O que vem a seguir
O movimento observado em prefeituras não é exclusivo do setor público. Outros setores de infraestrutura crítica, como energia e manufatura, também vêm registrando crescimento expressivo de ataques cibernéticos no país, sinal de que a mesma lógica de exposição, mais conectividade sem defesa proporcional, se repete em diferentes frentes. Setores que dependem de convergência entre sistemas administrativos e sistemas de automação industrial enfrentam, hoje, o mesmo dilema que uma prefeitura enfrenta ao conectar câmeras e semáforos à mesma rede que processa pagamentos.
Para gestores públicos, a decisão não é mais se vale a pena investir em segmentação e visibilidade de rede, é quanto custa adiar essa decisão até o próximo incidente. Cada mês sem segmentação é um mês a mais de exposição acumulada, em uma curva de risco que, segundo os próprios dados do setor, só cresce.
Conclusão
Se um em cada quatro ataques cibernéticos do Brasil já mira uma prefeitura, a segurança de rede de um projeto de cidade conectada não pode continuar sendo tratada como item de reforço. O caso de São José do Rio Preto mostra o custo concreto de tratar segurança como remendo: seis dias de cidade no papel, serviços essenciais sustentados por caneta e telefone. A mesma lógica de exposição aparece em portais governamentais comprometidos por configuração básica e em setores como energia e manufatura, onde a convergência entre sistemas administrativos e operacionais cresce mais rápido que a defesa correspondente.
Segmentação de rede, visibilidade por dispositivo e tempo de detecção não são itens de checklist técnico, são o que decide se o próximo incidente vira um alerta contornado ou uma paralisação de dias. E essa decisão é tomada muito antes do ataque, no momento em que a rede da cidade é desenhada.
Avalie com a Erione o desenho de segurança da sua infraestrutura urbana, a partir do mesmo diagnóstico técnico apresentado no painel Erione e Fortinet na Innovation Week 2026.